A DANÇA SAGRADA

Moria_Wood

A dança é um diálogo onde as palavras são movimentos. Para executar uma dança sagrada, os movimentos devem ser consagrados. A consagração do gesto equivale a uma direcionalidade do movimento em que este se torna um sinal e é portador de uma mensagem. Exige-se primeiro a presença de uma idéia ou de um objetivo a alcançar e em seguida trabalha-se o corpo para adquirir a máxima maneabilidade para exprimir a Ideia.

Exemplo: 

Ideia de elevação: subida do corpo para o alto; Ideia de libertação: abertura do corpo para fora.

A dança sagrada exige algo mais do que o próprio domínio corporal; exige também uma participação ativa da consciência, que simultaneamente irá se manifestar na sequência de movimentos. Aqui o indivíduo não exprime algo que lhe é exterior: procura ser verdadeiro; o seu corpo é a oferenda e a sua consciência é o oficiante. Ele dança com o espírito, quer dizer, exalta o corpo para sublimar.

A dança é para ele uma via de libertação! Assim, a expressão corporal não será inata; o que é inato é a disponibilidade do corpo para se expressar. Para que haja expresssão, tem que haver Ideia. Esse motor oculto (inconsciente arquetipal) estimula a alma que irá comunicar ao corpo o caminho a seguir. Qaunto mais a consciência estiver embebida na Ideia, maior será a capacidade do oficiante em realizar os movimentos certos. Menor capacidade, menor transparência interior.

A dança sagrada exige uma descida da Ideia (Ideal) no corpo. Só o Ideal perfeito poderá tornar o corpo perfeito. Os vários movimentos marcam as etapas de tomada de posse do Espírito sobre o corpo. em termos filosóficos, poderíamos dizer que os impedimentos apra realizar um movimento perfeito derivam do fato de nós nos termos afastado da realidade, da perfeição. Esse ideal dorme em potência no corpo, na Alma e no Espírito (belo, bom, justo) do Homem. Falta-nos redescobrir esta meta, recordá-la para a tornar vivencial. Este é o caminho, e a dança é uma das suas vias de acesso.

Por isso também encontramos na dança sagrada uma apoteose final: o êxtase, estado sublime, onde deixa de existir diferença entre o exterior e o interior; entre o EU vontade e o EU corporal. Esse estado de união perfeita entre o corpo e o espírito surge quando a alma embriagada pela música, que ritma e sintoniza os movimentos, se deixa subjugar pela Ideia; é possuída por Ela numa dádiva total. Nas danças primitivas encontramos este processo através da 1ª fase ligada à Purificação. exorcizar ou fazer sair os maus gênios (espíritos) que habitam o homem; afastar o Mal para que o Bem possa intervir. Depois deta 1ª fase surge então o diálogo do Homem com as Forças Superiores. Os ritmos musicais procuram aureolar o Homem num campo vibratório apropriado; a música dá a cadência marcando os diferentes estados da dança sacralizada.

De fato, nós encontramos sempre o mesmo princípio da Maiêutica socrática em todas as atitudes sacralizantes , seja a música, a psicologia, a filosofia, a dança ou outras disciplinas: esvaziar para encher, sair para entrar, morrer para renascer.

Hoje temos afastado de nós este sentido sagrado da dança, talvez devido ao fato de não existir a ideia do Sagrado. Sagrado significa puro, precioso, verdadeiro, real na sua essência. O Sagrado exige a consciência do Bem supremo e sua veneração. em oposição ao Sagrado está o Profano, o que está por debaixo, em posição de menor importância, de menor valor. Proffanar significa desvalorizar algo, destituí-lo do seu valor essencial. A atitude profana é um gesto sem intenção transcendente; é comum e falta-lhe a consciência do porquê.

A Dança Profana reflete duas tendências:

1ª- Regresso ao mero instinto (espontaneidade do corpo). Aqui é a natureza inferior que predomina. Essas danças refletem formas caóticas onde as emoções convilsionam de uma maneira orgíaca. O corpo sobrepôe-se à mente o que resulta em impressões sensoriais sem grande transcendencia. É uma forma primária de deixar falar o corpo; trata-se, pois, de uma dança orgânica que procura sensações rápidas e passageiras. A música que lhe corresponde utiliza vibrações violentas com cadências curtas ou então lânguidas com cadências longas.

2ª- Corresponde ao tipo tecnicista que se situa no outro extremo já que a 1ª nega a própria técnica, utilizando apenas o instinto. Esta segunda tendência procura através da forma o artifício que tem mais a ver com o proposito corporal do que com a arte da Dança. É uma dança que, vazia de mensagem, pretende transmitir sem saber o quê. Por isso recorre á exuberância, à pseudo originalidade para parecer rara. Requer muita técnica para se justificar, pois joga com a ilusão e necessita do público para auto-lisongear-se.

Estas formas de dança seguem correntes de opnião, fortemente intelectualizadas, que manipulam a Arte numa dialética de convenções sociais. A Arte para ser Arte tem de ser universalmente sentida. Os olhos da alma sabe reconhecer espontaneamente a beleza de uma rosa, de um por-do-sol sem para isso recorrer a um dicionário de estética. A Arte verdaeira fala por si, não é elitista, exclusiva, e tem por objetivo comum a todos os seres: a perfeição, que procura expressar através de múltiplas atitudes. As formas diferem mas a essência é a mesma para todas as disciplinas. O objetivo é expressar a vida, a beleza,  desabrochar da Alma através de um simples passo de dança que eleve o corpo ás Alturas.

A transmissão do ideal de Perfeição através da dança é querer expressar um princípio universal, do qual nós reconhecemos a supremacia. Hoje as pessoas recusam-se a aceitar este princípio pela simples razão de que têm inconscientemente medo de não estar à altura de o viver. Negando o perfeito é mais fácil legitimar a imperfeição. Que melhor lugar para a mentira do que aquele de onde a verdade foi banida!?

A segunda tendência da dança profana, dita contemporânea (que está limitada a um tempo determinado, restrita a um momento) é para nós um puro sofisma. Urge, então, erguer uma nova dialética da profundeza para que renasça a dança sacralizada (a que perdura sempre). Neste reencontro com o objetivo da Vida o Homem irá beneficiar de um novo impulso e poder-se-á regenerar através da dança participando da sua essência.

A verdadeira dança é um puro ato de Amor, sendo esta a união perfeita da Alma com Deus. A dança não é somente prazer para o  corpo e para os olhos; ela deve transmitir algo mais que movimento; deve procurar exaltar e recordar ao Homem a ideia do Belo, da Perfeição que só pode ser transmitida na medida em que o executante a torne em si mesmo vivencial.

A dança é uma Iniciação à Vida. É o eterno movimento de Deus. É a oração do corpo.

Que mais poderemos dizer senão encorajar todos aqueles que por esta arte se sentem atraídos. Pois, no fundo, onde existe amor à Arte, existe o Artista, este homem que, frente a Beleza, frente à Perfeição, manifesta a sua mais sincera homenagem através da ação de si próprio.

 

Françoise Terseur – Pintora, Investigadora e Formadora da Nova Acrópole.

Via: http://www.nova-acropole.pt/

 

2 respostas em “A DANÇA SAGRADA

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