Ciência da Alma: O Espiritismo e a Psicanálise

Psico

Seria absurdo tentar encontrar similitudes formais, lineares entre Psicanálise e o Espiritsmo.

O Espiritismo é uma doutrina com objetivos moralizantes, éticos e possui uma estrutura definida filosoficamente, tentando dar sentido científico às suas propostas sobre a natureza espiritual do homem e da sua visão de mundo.

A Psicanálise se define como uma ciência psicológica, com estrutura própria e tenta equacionar o ser humano dentro de uma teoria e prática terapêutica e, extrapolando-a, uma visão de homem e de mundo decorrente.

O homem é o objetivo tanto do Espiritismo, quanto da Psicanálise.

Seria incorreto dizer que a Psicanálise é materialista. Diríamos que, como as demais ciências do homem ela o vê dentro do prisma orgânico em que se manifesta no mundo. Entretanto, admite a existência de um estágio psíquico no homem e embora concebendo-o objetivamente, trabalha sobretudo em níveis de subjetividade ao tentar analisar seu comportamento a partir de instâncias psíquicas sem bases biológicas.

O Espiritismo pretende encontrar a razão do viver, a essência do homem em dimensões espirituais. Divide-o entre sua natureza de Espírito, como ser inteligente e seu corpo somático, que o define apenas enquanto encarnado, e sobre o qual não apenas tem a precedência como a sobrevivência.  Além disso, o Espiritismo olha o homem no presente como produto de uma série de experiências reencarnatórias.

A Psicanálise trata mais precisamente dos problemas neuróticos, dos desvios do comportamento, tentando fazer o homem internalizar-se para melhor desenvolver suas potencias, sem objetivos moralizantes ou espirituais, no sentido de permanência do ser após a morte.

Tanto o Espiritismo, quanto a Psicanálise tentam descobrir a razão do comportamento humano.

A Psicanálise localiza-se no universo da vida presente, buscando a razão dos desvios nas relações afetivas desenvolvidas na infância, embora reconheça que existem estruturas inatas no homem que determinariam sua escolha neurótica.

O Espiritismo localiza-se num universo mais amplo, projetando-se para uma vivência do Espírito como individualidade permanente, em sucessivos segmentos encarnatórios e encontra na culpa do passado a razão dos desvios do presente e projeta o desenvolvimento pessoal conjunturando sobre a perfeição no tempo e no espaço.

Como dissemos, o Espiritismo filosofa sobre a natureza do homem e de suas problemas. A Psicanálise pesquisa e atua sobre os sintomas neuróticos, tentando encontrar no desenvolvimento da existência atual a causa dos desvios.

Sob o ângulo específico da estrutura do ser, a Psicanálise desenvolveu um modelo do aparelho psíquico e estabeleceu parâmetros de análise das causas do comportamento humano, como o complexo de édipo, os princípios do prazer e da realidade, a estrutura do aparelho psíquico, nas tópicas do ego, id e superego e consciente, pré-consciente e inconsciente, e outros mecanismos de defesa psicológicas, que determinam o estar no mundo da pessoa.

 

Existem pontos de contato entre o Espiritismo e a Psicanálise?

 

Se consideramos que Allan Kardec disse: “ O Espiritismo e o materialismo são como dois viajantes chegados a certa distância, diz um, “ Não posso ir mais longe”. O outro prossegue e descobre um novo mundo. O Espiritismo marcha ao lado do materialismo, no campo da matéria, admite tudo o que segundo admite; mas avança para além do ponto em que este último para”, podemos aproveitar a estrutura do pensamento Freudiano e adicionar a ela o entendimento do Espiritismo.

Acredito que o discurso psicanalítico tem um valor importante e o discurso espírita pode utilizar-se dele, utilizar seu aparato teórico e introduzir nele conceitos que, a meu ver, lhe dão continuidade. Agora, então teremos um discurso espirito somático, pois postulamos não uma transcendência dos sistemas neuróticos e psicóticos, mas experiência vivencial concreta, humana, no círculo das angústias e necessidades do homem comum.

Só que o homem comum, sob a ótica espírita não se restringe ao organismo. É uma combinação espírito-organismo uma unidade espiritual e somática.

Freud não considerou a existência da alma como ser. Mas descobriu e explorou o psiquismo que codificou, embora sem dizer ou saber onde localizá-la no cosmo cerebral. Ele todavia não pode exonerar-se de muitas facetas do comportamento para as quais não encontrou explicação.

Analisando a raiz dos comportamentos ele, por exemplo, adotou o princípio das ideias inatas, não como reminiscência de um passado vivido, mas como estruturas de caráter que não encontram bases na existência, mas que estabelecem tendências que determinam o encaminhamento do indivíduo na vida.

Antes dele os problemas emocionais e comportamentais eram catalogados dentro de horizontes religiosos ou psiquiátricos, restritos às disfunções cerebrais. Com ele o psiquismo humano passou a ser considerado de uma forma sistemática. Desde então criou-se propriamente a psicoterapia.

Sua maior contribuição foi a descoberta do inconsciente, como lugar de recalque dos sentimentos que não podem ser suportados no consciente, devido as censuras. E por esse caminho considerou que o homem desconhece a si mesmo, isto é, que possui no seu cosmo interior, emocional, sentimentos, idéias, desejos controversos, conflitantes. Ao centralizar sua analise no sexo, escandalizou e criou incompreensões. Mas ao mesmo tempo tem mostrado que a sexualidade domina o indivíduo, pelo menos neste estágio evolutivo, como base que é da expressão das incertezas, emoções e desejos de intercomunicação de cada ser.

Embora o próprio Kardec tenha manifestado que a reencarnação era inerente ao processo de crescimento do ser e não mero instrumento punitivo, o Espiritismo, de modo geral, não conseguiu superar o peso da tradição judaico-cristã sobre o pecado original, a culpa e a dor, o sofrimento como únicos instrumentos de ascensão, purificação e regeneração da alma.

O Espiritismo persegue o ideal moral, às vezes moralista. Encontra na culpa pela prática do mal, a raiz de todos os males da pessoa e da sociedade. E propõe a cura desses males pela resignação na dor e pela prática das virtudes da moral de Jesus. A psicanálise, embora seu fundador tenha sido, a rigor, um moralista, não se propõem a curar, nem a julgar, mas explorar as resistências, tenta tornar o inconsciente consciente, pela reelaboração dos sintomas resultantes do “retorno reprimido”.

Acho que uma conexão teórico-prática entre os postulados psicanalíticos e espíritas, sem que um se reduza ao outro, mas, no meu ver, se completam. Dentro dessa premissa, acredito que o espiritismo tem uma contribuição à psicologia, não fosse ele a doutrina dos Espíritos, não apenas no sentido de que os entes desencarnados são considerados seus autores, como principalmente no fato de que está todo assentado sobre o estudo e a natureza do ser. Nesse sentido, pode-se dizer que além de doutrina dos Espíritos é também a doutrina do Espírito.

 

Nota da Redação : extraído do trabalho apresentado em 1996 por Jaci Régis ao Comité Científico da CEPA no XVI Congresso Espírita Pan-americano em Buenos Aires – 12 de outubro de 1996.

Nota da redação: Este trabalho foi seguido da elaboração da Espiritossomática por Jaci Régis, esta que é uma das raízes da Ciência da Alma – Artigo publicado na coluna Ciência da Alma – Jornal Abertura -dezembro de 2013 

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