As quatro faces da Deusa – Quando as quatro faces do masculino descobrem sua contraparte…

fases

O mundo contemporâneo assiste a transformações intensas e rápidas.

Quase que diariamente  modificações importantes ocorrem nos mais diversos setores.

Crise é uma palavra repetida e sentida em todos os meios.

Estamos vivendo os efeitos devastadores de um modo de vida que se mostrou não natural, não ecológico e não evolutivo.

Vivemos destruindo nossos recursos,  ignorando o bem estar das próximas gerações.

O velho procedimento de muitos povos indígenas segundo o qual cada ato deve ser pensado em suas conseqüências  até a  sétima geração perdeu-se completamente  neste mundo consumista e imediatista.

Quantos  compreendem que a Terra é como um aquário,  com recursos finitos?

Fome, doenças, guerras, destruição ambiental,  crises sociais, enfim uma longa lista de desequilíbrios pode ser aqui  descrita.

Mais do que nunca necessitamos estar plenos em nós mesmos para lidar com esses desafios e ainda realizarmos algo na busca de um equilíbrio maior .

Que mundo deixaremos para nossos descendentes?

As graves questões levantadas pelo nosso dia  a dia não podem ser respondidas satisfatoriamente enquanto continuarmos a ser esses entes fragmentados, neuróticos, isolados de nós mesmos.

Temos que recuperar nossa totalidade se desejarmos de fato  auxiliar nessa guerra entre as forças da consciência e da inconsciência que é travada instante a instante.

A crise que o mundo atravessa tem uma de suas causas  na negação do feminino.

Portanto a volta do feminino não deve  ser encarada como um  fenômeno passageiro, uma excentricidade ou um movimento inovador, descontextualizado .

É  antes de mais nada o equilíbrio se restabelecendo.

Este ponto é fundamental .

Quando o feminino foi perdido, quando as doutrinas patriarcais subjugaram as velhas tradições e impuseram seus valores limitados ao mundo, não foi apenas a mulher que perdeu.

Nós homens também muito perdemos,  pois cada homem traz dentro de si a  ânima, aspecto complementar e importante de sua psique que mal trabalhada nos torna menores e menos humanos.

Quando a Deusa foi oculta e seu arquétipo deturpado pelo clero machista e patriarcal, não apenas a mulher   deixou de ter acesso ao seu imenso potencial , como nós homens, também  perdemos uma parte profunda de nós  o que nos tornou menos homens, nos reduzindo a máquinas , a  machos,  machucados  por termos perdido parte de nossa realidade.

E desde então seguimos desanimados por termos sido subtraídos de aspectos de nossa ânima.

O renascer do feminino.

Após tanto tempo dominados por uma cultura patriarcal que nega os valores femininos e leva a uma abordagem linear e fragmentada da realidade estamos vivendo novamente o renascer do feminino em nossa cultura.

Exausta  após uma longa dominação  por paradigmas que nos levaram a esse momento onde  vivemos sob a ameaça de  extermínio não só da raça humana mas de toda a vida , a crise ecológica sem precedentes, o caos social, observamos a humanidade em busca de novos caminhos.

E sendo o feminino a contraparte natural do masculino e mais ainda, a força predominante da natureza  é sua volta que marca  um passo real na busca desse equilíbrio perdido.

Há uma relação dinâmica, podemos dizer dialética, entre os princípios feminino e masculino  e qualquer subjugação de um pelo outro resulta em desequilíbrio, em desarmonia.

Mas como nós homens podemos   participar dessa  volta do feminino?

De que forma nós, Xamãs desses tempos, percebemos tal movimento?

O 4 é um número sagrado.

Para todas as culturas, em vários  locais e em várias épocas vamos encontrar o  4 como número  símbolo da base e da estabilidade.

Assim temos as quatro direções, os 4 elementos e tantos outros níveis de manifestação do 4.

As 4 faces da Deusa, entendendo por Deusa uma símbolo da energia feminina.

Mas o que é a energia feminina?

Como ela se distingue da masculina?

Antes da diferenciação, antes da vinda do  Yin e do  Yang , do homem e da mulher,  há o Tao,  o andrógino que em si reúne as duas polaridades.

Em primeiro momento onde há apenas um Todo indiferenciado a vagar em si mesmo.

Então num certo momento esse Todo emana de si mesmo e a manifestação tem início.

O Todo emana uma parte de si mesmo.

O grande Dragão indiferenciado  bota um ovo e o envolve.

Desse ovo nasce o mundo tal qual o compreendemos.

Neste processo  surge em primeiro plano a energia  indiferenciada,  andrógina, plena.

Depois num outro momento ocorre a diferenciação , quando dois aspectos desse mesmo Todo tomam  forma e aqui encontramos  o primeiro masculino e o primeiro feminino.

Temos que ter muita sutileza para realmente compreender esse processo, pois os referenciais  de nossa cultura podem nos confundir , uma vez que eles desprezam, de forma explicita ou implícita o feminino.

A energia que estimula a vida é tida como masculina, e a que gera como feminina.

É dialética a relação que se estabelece entre essas duas forças, nenhuma é mais importante ou mais  “potente”.

São complementares, oriundas e impregnadas da mesma fonte, apenas aspectos diferentes no mundo da manifestação.

Dimensão, dois, di, tudo que o que aqui se manifesta é  dual.

Masculino e Feminino são  dois  momentos de manifestação da  inenarrável energia original da qual emanamos, a mesma que mais tarde vai ser usada pelas  hierarquias criadoras para  criar mundos e seres.

Em 4 momentos vamos encontrar essa energia.

Podemos tecer analogias.

As  4 estações,  as quatro fases da lua. Os quatro momentos do dia: manhã, tarde, noite e madrugada.

Assim encontramos as 4 faces dos Deuses e das Deusas.

O menino, o amante, o pai e o ancião.

A menina, a amante, a  mãe e a anciã.

Cada um desses aspectos revela no homem e na mulher  uma manifestação da Totalidade em si.

Temos cada um  desses quatro aspectos em nós, mas cada um  tem um desses aspectos mais  forte, mais ativo em nossa psique.

Em nossa vida passamos por estes quatro aspectos.

Podemos  chamá-los ; infância, juventude, maturidade e velhice.

E podemos vive-los de forma mais ou menos intensa e consciente, mas eles estão em nossas vidas se nós estivermos de fato vivos(vivas)  e não apenas sobrevivendo como é mais comum.

Uma coisa que perdemos em nossa cultura ocidental, vamos chamar assim a esta cultura dominante que hoje nos escraviza com seus (pré) conceitos,  são os ritos de passagem.

Deixamos de marcar, comemorar e ritualizar, os momentos de passagem de um estado para outro.

Assim o menino e a menina não mais percebem quando deixam esse estado e se tornam jovens, e o adulto não mais  tem sua entrada nessa fase marcada por ritos que re-atualizam suas lembranças de estar numa nova fase de sua vida, tão pouco a  idade da sabedoria é marcada por algum sinal.

Com esta ausência dos ritos de passagem, perdemos nós enquanto indivíduos e perde a sociedade como um todo por deixar de ter pessoas realmente integradas em seu seio.

Essa perda dos ritos de passagem,  os quais ainda existem nas  culturas chamadas primitivas, priva-nos de perceber nossa sincronicidade com o  Transcendente e com os arquétipos universais .

E nos impedem de mergulhar em nós mesmos e descobrirmos as faces do Deus e da Deusa em nosso interior.

E como compreender  a Divindade  quando a ignoramos em nós mesmos?

Cada mulher traz o ânimus em si e cada homem traz a ânima.

Não podemos mais seguir com  a vida , assim tão desanimados , como vemos as pessoas em nosso cotidiano.

É necessário re-atualizar nosso elo com a Totalidade  e só como seres completos podemos realizar esse rito de união.

Portanto a redescoberta do feminino não é um caminho apenas das mulheres.

Houve uma perda para nós homens também e a nós cabe uma jornada iniciática de recuperação de nossa ânima.

Há ainda outro ponto importante.

Fala-se muito na perda do feminino e na sua volta, no seu redescobrir.

Mas quem disse que  temos o masculino de fato presente?

Pois a cultura dominante é segmentada, neurótica e esquizofrênica, realmente patológica.

Se  um indivíduo fosse clinicamente  considerado incapaz de viver em harmonia no seio da sociedade e seus atos representassem perigo à vida e ao bem estar de sua coletividade, nós não  cuidaríamos para que fosse internado e não pudesse ter  acesso a qualquer  meio de tornar reais as ameaças que nele vemos expressas?

Dentro deste princípio simples, só nossa profunda  ignorância do valor da vida nos leva a aceitarmos os governos estabelecidos , com sua loucura suicida  e desequilibrada.

Temos que compreender que não está o masculino  de fato presente em nossa cultura.

A cultura dominante é hoje regida por um clero patriarcal e  neo cristão.

Seus valores são anti ecológicos, predadores, valorizando uma relação parasitária com outros povos e nunca  optando por saídas inteligentes que envolvessem o comensalismo ou a simbiose.

A guerra foi transformada numa industria e uma grande parte dos recursos naturais  e muitas   mentes brilhantes estão empregados agora em  construir armas com maior capacidade de exterminar a vida, ao invés de preservá-la.

E através de uma intensa campanha  de propaganda valores falsos são impostos à pessoas despreparadas para tal  “lavagem cerebral”   via mídia.

Assim o homem perde sua  condição original e se torna apenas um macho.

E o macho não é homem, não é pleno, é  doente, machucado, por negar o feminino que traz em si.

Escondendo a dor de sua incompletude  em atitudes belicosas, em lutas pelo poder, o poder sobre outros , pois é incapaz de ser senhor de si mesmo.

Incapaz de amar, pois não ama a si mesmo,  está só, frustado e carente, escondido nas máscaras de senhor e de poderoso, mas , como o mágico de Oz, é apenas uma criança projetando uma falsa imagem. Infelizmente sem a sensibilidade deste.

Raros homens conseguem realmente amadurecer.

A maioria  estaciona na fase da puberdade e ficamos assistindo a seus jogos adolescentes por toda a vida, mudando o nível do jogo, mas ainda em disputas dentro de valores de ter e se firmar perante o meio, respondendo a padrões  completamente adolescentes e imaturos.

O ser humano está incompleto.

E incompleto não consegue a harmonia.

Não encontrando  sua contraparte dentro de si mesmo, não a reconhece no exterior.

Privando-se de um real contato com  as mulheres à volta, apenas usando das fêmeas que conhece para  que os impulsos biológicos determinados pela raça se satisfaçam e suas imensas carências tentem ser sanadas.

Então a sexualidade acaba se tornando uma outra arena de poder, onde o prazer , orgasmo pleno entre os parceiros é  perdido.

Isolados de sua plenitude homens e mulheres,  robotizados, menos que humanos, caminham em vidas estéreis, sem amor,  em jogos de  poder e dominação, de insegurança e medo, por não estarem completos em si mesmos e assim buscam fora o que está dentro de si .

Convido assim você que lê este texto a mergulhar comigo nas  questões que pretendo aqui trazer a tona, a não apenas ler , mas a meditar de fato, a dar sua opinião e enriquecer esse debate.

Um exemplo claro  está na lenda de antigos povos  da região do médio oriente,   recontadas pelos hebreus.

Nesta lenda  o homem, a mulher e a serpente são símbolos para os três centros que trazemos em nós.

Assim  a  serpente  é quem indica  à mulher algo que esta transmite ao homem.

Por conta dessa lenda e da interpretação literal de seu simbolismo  ficou a mulher marcada em todas as  religiões que mais tarde surgiram dessa tradição  como um ser  inferior através do qual o  ‘pecado’ entrou  no mundo.

Isso está profundamente gravado na psique de muitos povos e é difícil dar o primeiro passo que  é  entender ser essa lenda um símbolo,  uma   alegoria.

Em muitos outros povos as lendas foram deturpadas e a mulher foi afastada de sua essência pelo medo das forças patriarcais dominantes.

Como povos indígenas brasileiros, que contam de Jurupari.

Antes dele só as mulheres podiam exercer os ofícios mágicos, mas ele veio e  roubou delas o poder, e agora as flautas mágicas não podem ser vistas ou tocadas pelas mulheres, só pelos homens em suas festas.

Esse afastamento da mulher do núcleo das religiões sempre foi justificado com essas interpretações equivocadas das lendas antigas.

Como bem coloca Freud temos uma educação religiosa muito intensa quando ainda somos muito novos e nossa educação sexual em contrapartida é  atrasada.

E  hoje, na  erAIDS se ensina  sexo sob o signo do medo, da Morte, quantos “ orientadores  sexuais” frustados e  irrealizados em  sua  própria  sexualidade  estão hoje  ensinando adolescentes  que  sexo é morte, é medo. Eros confundido  com  Thanatos  e  Fobos.

E religiosamente transformamos  belos mitos em moralismos  tacanhos .

Conceitos complexos são apresentados antes que nossa mente esteja madura para com eles lidar.

Por isso fica difícil lidar com tais idéias, eles estão armazenados em níveis pré racionais, cercados de medo.

O primeiro passo para podermos mergulhar na questão do feminino é  desfazer em nós mesmos essa confusão que nos  deram como parte de nossa educação.

Raríssimas pessoas conseguem escapar dessa armadilha.

Mas sem sair dela tudo o que podemos alcançar intelectualmente pode se desfazer subitamente.

Portanto mergulhar no feminino e resgatar seus valores é  enfrentar os paradigmas que fizeram da civilização euro-burguesa que nos domina  aquilo que ela é hoje.

Sim ,  resgatar  a  princesa  oculta no fundo da caverna é enfrentar os monstros que deixaram  a guardá-la.

É uma verdadeira jornada iniciática, em busca da  princesa que dorme na alta torre, ornando-lhe   a fronte ,uma grinalda de hera.

E o buscador a principio é dela ignorado, ele para ela não existe, ela para ele é ninguém.

Mas um dia, após vencer a estrada e os perigos que nela estavam, ele poderá entrar na torre, levar a mão , erguer a hera, e descobrir que ele mesmo era a princesa que dormia.

Essa frase, transcrita de um poema de Fernando Pessoa mostra bem a fundamental  importância desse reencontro com o feminino.

Yin e Yang são conceitos complexos.

Eles  indicam polaridades e não devemos nos esquecer que  o Yin traz o jovem Yang dentro de si e o Yang traz o jovem Yin dentro de si.

Não se opondo, mas se complementando,  se substituindo na dança cósmica da manifestação universal. Uma dança, um fluir por momentos da existência .

Como numa equação de balanceamento químico, se alteramos qualquer dos dois lados do processo o Todo sofre com isso.

Descaracterizando o  feminino acabamos por  descaracterizar o masculino também e  é nesse ponto que insistimos quando dizemos que o retorno do feminino não é apenas  interessante as mulheres, mas nós mesmos, homens, vamos recuperar nossa plenitude a medida que os valores femininos forem restaurados em sua plenitude.

O conceito de força e fragilidade é outro par de idéias que muito foi deturpado.

Este conceito ficou tão arraigado, estereotipadamente, que  a cultura dominante conseguiu fazer com que a maioria das pessoas os aceite como naturais sem se deter para um questionamento mais sensato.

O homem é forte, a mulher é frágil.

Alguns pensadores chegam a usar o termo feminino como sinônimo de  fragilidade, fraqueza e comportamento histérico.

Falam de valores viris e de homens que  ao desequilibrarem-se  ficam como mulheres frágeis e histéricas.

Tal deturpação do sentido do feminino mostra quão longe estamos da harmonia em nossa cultura e o quanto precisamos trabalhar para restabelecê-lo .

Ao mesmo tempo atribuem ao masculino a potência, a força.

A violência, a  “hybris”  fica confundida com um valor de virilidade e  desde   Francis Bacon os cientistas, homens, falam em  explorar a Terra, arrancar da natureza seus segredos.

São conceitos  tidos até  como “naturais”  por muitos pensadores.

Entretanto uma observação atenta das mulheres nos leva a conclusões diametralmente opostas.

Há uma cena evocada por Frank Herbert em um dos  livros da série Duna.

Ele fala  de uma mulher  tocando um arado, um filho pequeno amarrado  em si.

Essa mulher está ali, trabalhando pela manutenção da vida. Ela é o elo da vida.

Seu filho mais velho e seu marido?

Estão em alguma guerra , convocados por algum senhor feudal que se sentiu ofendido por  atitudes  tolas de um de seus pares. Homens em brigas imaturas e egóicas.

Caminhando em morte suas vidas.

Esses homens em guerra serão lembrados pelos livros de história, mas o elo da vida, a força da sobrevivência da espécie  está nessa mulher, simples, anônima  com o filho ao lado,  tocando com esforço o arado, para que a Terra continue dando  o que comer.

O barão ladrão que convocou a guerra terá seu nome citado e provavelmente ao passar por esta cena não perceberá que nela está a força da vida e da continuidade. Tudo destruirá.

Ele será tido por herói,  mas é apenas um desequilibrado gerando mais  desequilíbrio, enquanto a força da vida continua, quase imperceptível, mas com toda sua força em mulheres como esta.

Amplo  tema a ser meditado. Com cuidado e atenção.

Por: Julio Cesar Guerrero – http://www.imagick.org.br

3 respostas em “As quatro faces da Deusa – Quando as quatro faces do masculino descobrem sua contraparte…

  1. Parabéns pelo texto, muito esclarecedor! Quem dera mais homens (e mulheres) pudessem ver como o macho é tão frágil que vive cercado de fobias, justamente porque matou o seu feminino e com isso seu masculino também, deixando apenas a dor do macho, frustrado e incompleto! Vamos semear mais amor nesse mundo!

  2. Muito interessante,digno de darmos tempos para ler e aprender TUDO o qe vem nos artigos qe chegam aos meus e mails!Sigo agradecendo essa sabedoria divina!

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